ALUMNI ESPM
17 de novembro de 2009 • 13:38

A era do psiconomadismo

"Nesta sociedade de espetáculos, tudo o que é vivido se transforma em uma acumulação de imagens, se tornando representação", Guy Debord.

Escrito em 1967, o livro "Sociedade do Espetáculo", do pensador francês Guy Debord questiona a sociedade da época que, seguindo as diretrizes da vida moderna pós-industrial, prefere a imagem e a representação ao realismo concreto e natural. Ou seja, a aparência ao ser. Se a luta da época era contra o capitalismo moderno, esta soa desgastada, mas se aplica de maneira ainda mais verossímil se a relacionarmos com a chamada "Geração XY" ou "Geração 2.0".

Com idade inferior a minha e provavelmente a sua - afinal de contas, se não o forem, já teriam se desinteressado pelo tema proposto logo nas primeiras linhas -, estes jovens, se já não nasceram com a internet, se habituaram a ela para tudo o que fazem no seu dia a dia. Durante a escola, trocam mensagens entre si, depois, em casa, ficam grande parte do tempo navegando em redes sociais e, infelizmente, na grande maioria dos casos realizando atividades que não agradariam qualquer pai, mãe ou educador. Não por acaso, esta geração também foi apelidada de "Look At Me Generation" (algo como "Geração Olhe Pra Mim"). Não é raro achar jovens que passam o dia atualizando seus perfis nas diferentes redes sociais que possuem cadastro, como Orkut, MySpace, Facebook, Twitter, ou seguindo a vida de pessoas que as interessam pelos mais diversos motivos.

Na busca por conteúdo, procurando por tudo, acabam encontrando o nada. Seria a maximização do ser "quase", descrito por Washington Olivetto em sua crônica "Bobos (Bourgeois Bohemians)". Se para o publicitário a sociedade era composta de homens quase-inteligentes, quase-informados, quase-bonitos, etc. - pode-se dizer que a revolução tecnológica está parindo a sociedade da ejaculação precoce. Ou seja, são pequenos seres que passaram do quase. Que já são informados, mas que, olhando a fundo, nada sabem.

Se por um lado a multiplicidade de informações possibilita um número ilimitado de informações, por outro, e pelos mesmos motivos, ela limita o conhecimento geral. Explico. Se ao pesquisar sobre, digamos, o citado Guy Debord no Google e entrarmos na página do Wikipedia do autor, nos deparamos com um texto de seis parágrafos e 23 hiperlinks. Além de pensar que lendo os seis parágrafos já será possível saber quem foi Debord, o usuário tem a certeza de que, acessando cada um destes links, ele saberá 23 coisas novas. E quem disse que será preciso ler o texto inteiro? Idiotas somos nós, que lutamos pela resistência de jornais e livros. E não duvide que, em pouco tempo, o livro de Debord estará na lista de preferidos de uma série de perfis do Orkut. Quem sabe até possa se criar uma comunidade, afinal, o importante não é conhecer, mas sim, mostrar que conhece.

Em editorial recente, o mais prestigiado jornal do planeta, o The New York Times - que, por sua vez, está a beira de um colapso - definiu a era em que vivemos como a Era do Encolhimento. Este condensamento, que impacta desde o tamanho dos carros ao tamanho das embalagens de pães, impacta no tipo de informação que é buscada - daí o sucesso do "microblog" Twitter. Hoje em dia, poucos ainda lêem textos densos e longos - oi, alguém ainda tá por aqui?! - na internet. Esta tendência que surgiu com a substituição do e-mail por mensagens de textos tende a ficar ainda mais sintética, assim como a linguagem, cada vez mais metonímica.

Com uma necessidade cada vez maior de selecionar o conteúdo que irá receber, a Geração XY vive um processo de consumo viral, onde os formadores de opinião não estão sentados em confortáveis cadeiras em suas redações e sim na carteira ao lado. E isso, com muita pressa, por favor. Direcionando o artigo a um dos temas mais discutidos pelos jovens, a música, é interessante ver que não é apenas o psiconomadismo que exerce sua força sobre eles, mas também a clássica sensação de levar vantagem sobre o que têm contato.

Estamos vivendo na Indústria Musical um período de intensa transição do modelo físico para o digital. A venda de CDs tem caído vertiginosamente desde 2002 (apesar de parecer ter se estabilizado agora). Segundo dados da ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Discos), se no começo da década a venda de álbuns girava em torno de R$ 650 milhões, hoje em dia este número caiu para R$ 200 milhões. Na contramão destes dados, o consumo de música em celulares e na internet faz cada vez mais parte do dia a dia dos jovens. Apesar disso, é notório que aproximadamente 95% dos downloads de música digital são realizados de maneira ilegal, ou seja, são pirateados. Segundo pesquisa da Ipson Insight encomendada pela ABPD, se os downloads realizados fossem feitos de maneira legalizada, o setor arrecadaria três vezes mais do que o montante acumulado pelo mercado oficial com a venda de CDs e DVDs.

Apesar do número avassalador da aquisição de conteúdo ilegal na internet, pode-se enxergar uma perspectiva animadora para o setor. As receitas com música digital no Brasil apresentaram, em 2007, um aumento de 185% em relação a 2006. As vendas através da telefonia celular tiveram um crescimento de 157% e suas receitas representaram 76% do total do mercado digital, contra apenas 24% da internet. Mas se o jovem passa tanto tempo na internet, por que este consumo é tão díspare?

Desde que a indústria musical e a indústria da telefonia móvel viram que poderiam trabalhar juntas, diversos artistas de grande porte como Ivete Sangalo, Cláudia Leite, U2, NX Zero, entre muitos outros tiveram seus conteúdos atrelados a venda de celulares. Desta forma, em um caso representativo, o Jota Quest foi premiado com o "Celular de Diamantes" por ter vendido mais de 800.000 unidades do Sony Ericsson Walkman com conteúdo exclusivo da banda, como as músicas do novo CD, imagens de bastidores, músicas exclusivas para download, entre outras vantagens, gratuitamente. Gratuitamente? Ora, não exatamente, mas é exatamente esta sensação que faz o consumidor buscar o conteúdo neste modelo de negócio e não na venda online. Ou seja, se o conteúdo não pode ser dado, ao menos deve-se fingir que pareça isso. Ou será que os jovens realmente se preocupam e são engajados na luta contra a pirataria como a ACPM (Associação Anti-Pirataria Cinema e Música) ingenuamente acreditou? Não. Como bem Guy Debord definiu, nesta sociedade do espetáculo pós-tudo (como diria Caetano Veloso), a informação deve ser encontrada de maneira fácil e rápida, tanto faz se isso é feito de maneira ilegal ou não.

Além deste fato, um grande motor social é o "consumo de expectativa", ou seja, o jovem vivencia o produto mesmo antes de possuí-lo. Desta forma, suas necessidades reais e a posse de um objeto são menos representativas do que o desejo que esse transmite. Mesmo sem necessidade, o jovem busca o iPod com maior capacidade, o celular com mais diferenciais, aplicativos, etc.

Percebendo este "Gap Social", a Nokia acaba de lançar sua grande aposta - o aparelho Nokia Comes With Music. Neste modelo, o dono do aparelho pode adquirir, em um ano, quantas músicas quiser, de graça (não entrarei neste mérito novamente). O acervo da Nokia é composto por todas as grandes majors e um grande número de selos independentes que vêem seu montante crescer de acordo com o número de músicas suas baixadas. Desta forma, todos ganham: o consumidor, que fica com a sensação de que está "se dando bem"; as gravadoras, que ganham um reforço na luta para continuarem vivas; a Nokia, por conta da venda de celulares com alto valor agregado e com a tendência de que o aparelho seja trocado anualmente.

Mas esta é apenas uma das saídas. Em tempos de MySpace, YouTube, Facebook, entre outros, onde artistas independentemente de suas idades - vide os "cases" de Mallu Magalhães e Susan Boyle - ou talento - vide os "cases" de Cansei de Ser Sexy e Arctic Monkeys -, se tornam estrelas da noite para o dia. Aliás, exemplos não faltam.

É inegável que o acesso a um número infinito de informações possui suas vantagens, mas este excesso de oferta traz acoplado o risco da perda de filtros e da obtenção de um conteúdo apenas superficial. Muito provavelmente, em pouco tempo - se já não estiver acontecendo agora - os 15 minutos de fama propostos por Andy Warhol são igualmente representados por 15 milhões de cliques na esfera virtual.

Gabriel

é formado em Comunicação Social pela ESPM e possui MBA em Film & Television Business. Atualmente, trabalha na área de marketing e programação da Reserva Cultural de Cinema, além de colaborar para sites e revistas culturais.


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